Partilhar: WhatsApp
aulify
UC UC00275 · T. Marketing/RP, T. Vendas e Marketing

Ficha 02 · Tratar, analisar e concluir

Estatística descritiva, cruzamentos e qui-quadrado, análise qualitativa, segmentação, personas, concorrência, posicionamento e relatório
Versão · Aluno
Tempo · 45 minutos
Aluno(a)
Turma
Data

Exercício 1 · Limpar e descrever

Uma turma recolheu 20 questionários sobre gasto semanal em pastelaria (€). Os valores brutos, pela ordem de recolha, são:

6,50   8,00   7,20   0,00   9,50   6,00   240,00   7,80   5,50   8,20
7,00   6,80         9,00   8,50   7,50   6,20     8,80   7,40   6,60

O caso de 240,00 € corresponde a um inquirido que respondeu em 38 segundos a um questionário de 22 perguntas. O traço (—) é uma não-resposta.

a) Que decisões de limpeza tomas, e porquê? Documenta-as. b) Calcula média, mediana, moda e desvio-padrão da série limpa. c) Qual das medidas reportas ao cliente, e porquê? d) Escreve a frase exata que aparecerá no relatório.

Resposta:

a) Decisões de limpeza (documentadas)

Caso Decisão Justificação
240,00 € Excluir Duplo critério: valor implausível para gasto semanal individual em pastelaria e tempo de resposta de 38 s para 22 perguntas (impossível ler as perguntas). Registo: "caso 7 excluído — outlier + tempo de resposta abaixo do limiar de 3 min"
0,00 € Manter É uma resposta válida e informativa: há quem não gaste nada. Excluir zeros enviesaria a média para cima
— (não-resposta) Excluir do cálculo, manter o caso na base A base passa a ter n=20 casos, mas n válido = 18 para esta variável. Reporta-se o n válido

Regra: nenhuma exclusão é feita sem ficar registada. Se o cliente perguntar "porque é que aqui diz 18 e não 20?", tem de haver resposta.

b) Série limpa (n=18), ordenada:

0,00  5,50  6,00  6,20  6,50  6,60  6,80  7,00  7,20
7,40  7,50  7,80  8,00  8,20  8,50  8,80  9,00  9,50

c) Que medida reportar

Média e mediana estão próximas (7,58 € vs 7,30 €), o que indica uma distribuição razoavelmente simétrica depois da limpeza. Reporta-se a média, mencionando a mediana como confirmação. O desvio-padrão de 2,04 € merece nota, porque é quase todo explicado por um único caso de gasto zero — sinal de que a amostra tem um não-consumidor.

Se o outlier de 240 € tivesse sido mantido, a média subiria para 19,8 € — quase três vezes o valor real. Este é o efeito prático da limpeza.

d) Frase para o relatório

"O gasto semanal médio declarado em pastelaria é de 7,58 € (mediana 7,30 €; n=18 respostas válidas em 20 recolhidas). Foram excluídos um caso com valor implausível associado a tempo de resposta inferior ao limiar de validação e uma não-resposta. A dispersão é baixa (dp = 2,04 €), sendo explicada sobretudo por um inquirido que declarou gasto nulo."

Exercício 2 · Cruzar e testar

Um estudo com 320 respostas cruzou a freguesia de residência com a intenção de subscrever um serviço de entrega ao domicílio:

Sim Não Total
Montijo (centro) 42 108 150
Afonsoeiro 51 49 100
Freguesias rurais 47 23 70
Total 140 180 320

a) Calcula a percentagem de "Sim" por freguesia e interpreta. b) Calcula o qui-quadrado passo a passo e conclui (valor crítico a 95%, gl=2, é 5,99). c) Escreve a frase de relatório com a notação estatística correta. d) Que recomendação de negócio decorre daqui?

Resposta:

a) Percentagens por linha

% Sim Leitura
Montijo (centro) 42/150 = 28% Tem tudo à mão a pé — a entrega resolve pouco
Afonsoeiro 51/100 = 51% Zona intermédia
Freguesias rurais 47/70 = 67% Distância ao comércio é o fator dominante
Total 140/320 = 44% A média esconde uma variação de 39 pontos

A leitura global — "44% subscreveria" — levaria a um serviço uniforme para todo o concelho. A leitura por freguesia mostra que o serviço tem procura muito desigual e deve ser lançado onde a procura existe.

b) Qui-quadrado

Frequências esperadas = (total da linha × total da coluna) ÷ 320:

Esperado Sim Esperado Não
Montijo 150×140/320 = 65,6 150×180/320 = 84,4
Afonsoeiro 100×140/320 = 43,8 100×180/320 = 56,3
Rurais 70×140/320 = 30,6 70×180/320 = 39,4

Contribuições:

Montijo Sim   (42 − 65,6)² / 65,6 = 556,96 / 65,6 =  8,49
Montijo Não  (108 − 84,4)² / 84,4 = 556,96 / 84,4 =  6,60
Afons.  Sim   (51 − 43,8)² / 43,8 =  51,84 / 43,8 =  1,18
Afons.  Não   (49 − 56,3)² / 56,3 =  53,29 / 56,3 =  0,95
Rurais  Sim   (47 − 30,6)² / 30,6 = 268,96 / 30,6 =  8,79
Rurais  Não   (23 − 39,4)² / 39,4 = 268,96 / 39,4 =  6,83
                                              χ² =  32,84

gl = (3−1) × (2−1) = 2. Como 32,84 > 5,99, rejeita-se a hipótese de independência.

Onde está a associação: as maiores contribuições vêm de Montijo-centro (8,49 + 6,60 = 15,1) e das freguesias rurais (8,79 + 6,83 = 15,6). O Afonsoeiro contribui pouco (2,1) — comporta-se praticamente como o esperado. Ou seja, o efeito é dos dois extremos.

c) Frase de relatório

"A intenção de subscrever o serviço de entrega ao domicílio varia significativamente com a freguesia de residência (χ² = 32,84; gl = 2; p < 0,001; n = 320). A intenção é de 67% nas freguesias rurais, 51% no Afonsoeiro e 28% no centro do Montijo."

d) Recomendação

Lançar o serviço primeiro nas freguesias rurais e no Afonsoeiro, não no centro. Isto inverte a intuição habitual (começar onde há mais população) e é exatamente o tipo de conclusão que justifica o custo do estudo.

Recomendação completa, no formato do relatório:

Recomendação Esforço Impacto Responsável Prazo
Piloto de entrega limitado às freguesias rurais + Afonsoeiro, 2 dias/semana Médio Alto Direção comercial 60 dias
Não alargar ao centro na fase 1; reavaliar com dados do piloto Baixo Médio Direção comercial 120 dias
Estudar no piloto o valor mínimo de encomenda que torna a rota rentável Baixo Alto Controlo de gestão 90 dias

Limitação a declarar: com n=70 nas freguesias rurais, a margem de erro desse subgrupo é de ±11 pp. A conclusão de que a procura é maior aí é sólida (a diferença face ao centro é de 39 pontos), mas o valor exato de 67% não é preciso — o intervalo é [56%; 78%].

Exercício 3 · Da média à decisão errada

Um relatório apresenta esta conclusão:

"A satisfação global com o atendimento é de 3,9 em 5, o que consideramos positivo. Recomendamos manter o atual modelo de atendimento."

Os dados por trás são:

Grupo n Média
Clientes com mais de 3 anos 180 4,6
Clientes entre 1 e 3 anos 90 3,8
Clientes com menos de 1 ano 110 3,0

a) Verifica se a média global de 3,9 está correta. b) Explica por que a conclusão do relatório é errada. c) Reescreve a conclusão e a recomendação.

Resposta:

a) Verificação da média ponderada

(180 × 4,6) + (90 × 3,8) + (110 × 3,0)   =   828 + 342 + 330   =   1 500
1 500 ÷ 380 = 3,947 → 3,9  ✓ correto

A média está aritmeticamente certa. O problema não é o cálculo — é a leitura.

b) Por que a conclusão é errada

  1. A média agrega grupos com realidades opostas. 4,6 e 3,0 são dois mundos diferentes; nenhum cliente real vive a experiência "3,9".
  2. O gradiente é o achado, e foi ignorado. A satisfação cai monotonicamente com a antiguidade decrescente: 4,6 → 3,8 → 3,0. Isto não é ruído, é um padrão.
  3. A direção do problema é a pior possível. São os clientes novos que estão insatisfeitos — precisamente os que ainda não criaram hábito e que se perdem com mais facilidade. Uma satisfação de 3,0 em clientes com menos de 1 ano é um indicador avançado de perda de clientes.
  4. Há um enviesamento de sobrevivência. Os clientes com mais de 3 anos avaliam bem porque os insatisfeitos já saíram. A média alta desse grupo não prova qualidade — prova apenas que quem ficou gosta.
  5. "Manter o modelo" é a recomendação exatamente contrária à que os dados sustentam. O modelo atual funciona para quem já o conhece e falha com quem chega.

c) Conclusão e recomendação reescritas

Conclusão. A satisfação com o atendimento apresenta um gradiente acentuado por antiguidade: 4,6 (>3 anos, n=180), 3,8 (1–3 anos, n=90) e 3,0 (<1 ano, n=110). A média global de 3,9 não descreve nenhum grupo real e resulta do peso dos clientes antigos na amostra. O valor elevado deste grupo é, em parte, efeito de sobrevivência — os insatisfeitos já não são clientes. O problema concentra-se na fase inicial da relação, onde 110 clientes avaliam o atendimento em 3,0.

Recomendação prioritária. Redesenhar o acolhimento dos primeiros 90 dias: sessão inicial de apresentação do serviço, contacto proativo à 2.ª e à 6.ª semana, e ponto de contacto identificado com nome. Esforço: médio · Impacto: alto · Responsável: coordenação de atendimento · Prazo: 90 dias.

Estudo complementar necessário. As médias dizem que há um problema, não qual. Recomenda-se um bloco qualitativo de 8 a 10 entrevistas a clientes com menos de 1 ano, com foco nas primeiras interações, e a análise das razões de saída dos clientes que abandonaram no primeiro ano.

Métrica de acompanhamento. Satisfação do coorte "<1 ano" medida trimestralmente, com objetivo de 3,8 em 12 meses, e taxa de retenção ao 12.º mês.

Exercício 4 · Codificar dados qualitativos

Oito entrevistados responderam à pergunta "o que o faria comprar mais vezes na loja do bairro em vez do supermercado?":

E01: "Se soubesse os preços antes de entrar. No supermercado vejo tudo, ali tenho de perguntar e fico com vergonha." E02: "Ter mais horário. Eu chego às 19h30 e já está fechado." E03: "Sinceramente? Se aceitassem multibanco. Não ando com dinheiro." E04: "Não é o preço. É que nunca sei se têm o que procuro. Ir lá e voltar de mãos a abanar é irritante." E05: "Gosto do senhor, sempre me atendeu bem. Mas se calhar comprava mais se pudesse encomendar por WhatsApp." E06: "Acho caro. Nunca comparei bem, mas dá-me essa sensação." E07: "Se abrissem ao domingo de manhã. É quando tenho tempo." E08: "Se tivesse onde encostar o carro dois minutos. Não é para estacionar o dia, é dois minutos."

a) Atribui um código a cada excerto. b) Agrupa os códigos em categorias. c) Constrói a matriz temática com contagem. d) Formula três hipóteses para o questionário quantitativo, com a pergunta correspondente. e) Identifica o caso negativo e explica porque é importante.

Resposta:

a) e b) Codificação e categorização

Entrev. Excerto-chave Código Categoria
E01 "saber os preços antes de entrar" Preços não visíveis Transparência
E01 "fico com vergonha" de perguntar Constrangimento social Experiência
E02 "chego às 19h30 e já está fechado" Horário incompatível com trabalho Acessibilidade
E03 "se aceitassem multibanco" Meio de pagamento Conveniência
E04 "nunca sei se têm o que procuro" Incerteza de disponibilidade Disponibilidade
E05 "encomendar por WhatsApp" Canal de encomenda Conveniência
E06 "acho caro, nunca comparei" Preço percebido (não verificado) Preço
E07 "abrissem ao domingo de manhã" Horário de fim de semana Acessibilidade
E08 "onde encostar o carro dois minutos" Paragem curta Acessibilidade

c) Matriz temática (n=8 entrevistas)

Categoria Códigos Entrevistas %
Acessibilidade Horário semanal, horário domingo, paragem curta E02, E07, E08 38%
Conveniência Multibanco, encomenda por WhatsApp E03, E05 25%
Transparência Preços não visíveis E01 13%
Disponibilidade Incerteza de stock E04 13%
Preço Preço percebido E06 13%
Experiência Constrangimento ao perguntar E01 13%

(as percentagens somam mais de 100% porque E01 gerou dois códigos em categorias diferentes)

Achado principal: o preço aparece uma única vez, e mesmo essa é uma perceção não verificada ("nunca comparei bem"). O bloco dominante é a acessibilidade (horário e paragem), seguido da conveniência (pagamento e encomenda). Isto contraria a explicação habitual do comerciante — "o supermercado é mais barato" — e é o resultado mais valioso do estudo qualitativo.

d) Três hipóteses e as perguntas correspondentes

Hipótese Pergunta de questionário Análise prevista
H1: mais de 50% dos não-clientes indicam o horário como principal obstáculo "Qual o principal motivo para não comprar mais vezes na loja do bairro? (escolha um) Horário / Preço / Falta de variedade / Pagamento / Estacionamento / Outro" Frequências + cruzamento com situação profissional (χ²)
H2: a perceção de "mais caro" existe sobretudo em quem nunca comparou preços 1) "Considera os preços da loja do bairro: muito mais caros / mais caros / semelhantes / mais baratos" e 2) "Já comparou preços dos mesmos produtos entre a loja e o supermercado? Sim / Não" Cruzamento das duas perguntas + χ². Se a perceção de "caro" for maior em quem nunca comparou, o problema é de comunicação, não de preço
H3: a disponibilidade de pagamento eletrónico e de encomenda remota aumenta a intenção de compra "Se a loja aceitasse multibanco e permitisse encomendar por WhatsApp, compraria lá: muito mais vezes / mais vezes / na mesma / menos vezes" Frequências + cruzamento por escalão etário (para saber se o WhatsApp é relevante para todos ou só para uma faixa)

e) O caso negativo

E05 é o caso negativo: é o único que exprime uma relação positiva com a loja ("gosto do senhor, sempre me atendeu bem") e, mesmo assim, compra pouco. Isto é importante por duas razões:

  1. Desmonta a hipótese fácil de que o problema é a qualidade do atendimento. Não é: o atendimento é um ativo. O problema é de acesso, não de relação.
  2. Aponta a alavanca de maior retorno. E05 já gosta da loja e já lá vai — remover um atrito operacional (encomenda por WhatsApp) converte relação existente em vendas, sem custo de aquisição de cliente.

Regra metodológica: um relatório qualitativo que só apresenta o padrão dominante e omite os casos que o contrariam é um relatório incompleto. Os casos negativos são frequentemente onde está a recomendação mais rentável.

Exercício 5 · Segmentar e construir a persona

Um estudo com 300 respostas a uma escola de música identificou estes dados:

Grupo n Idade média Motivo principal Frequência Mensalidade que aceita
A 96 9 anos (aluno) / 38 (pagador) Formação dos filhos 1×/semana 45 €
B 72 16 anos Progredir a sério, exames 2×/semana 70 €
C 84 44 anos Lazer, retomar um sonho antigo 1×/semana 55 €
D 48 27 anos Tocar em banda com amigos 1×/semana irregular 35 €

a) Aplica o teste MADAR a cada segmento. b) Escolhe o(s) segmento(s)-alvo e justifica com números. c) Define a política de marketing (produto, preço, distribuição, comunicação) para o segmento escolhido. d) Constrói a persona completa desse segmento.

Resposta:

a) Teste MADAR

A (pais) B (adolescentes) C (adultos lazer) D (jovens banda)
Mensurável ✓ 32% da amostra ✓ 24% ✓ 28% ✓ 16%
Acessível ✓ escolas, associações de pais ✓ escolas, redes sociais ✓ redes, imprensa local, farmácias ⚠ disperso, sem canal claro
Dimensão ✓ 96 × 45 € × 10 meses = 43 200 €/ano ✓ 72 × 70 € × 10 = 50 400 € ✓ 84 × 55 € × 10 = 46 200 € ✗ 48 × 35 € × 10 = 16 800 € (e com desistências)
Acionável ✓ horário pós-escolar, audições ✓ preparação de exames, professor especializado ✓ turmas de adultos, horário noturno, sem exames ⚠ o que querem é sala de ensaio, não aulas
Rentável/durável ⚠ rotatividade alta (mudam de atividade) ✓ ficam 3–5 anos ✓ baixa desistência, pagam pontualmente ✗ irregulares, alta desistência

Falham o teste: D falha na dimensão e na durabilidade, e é duvidoso na acionabilidade — o que procuram (espaço de ensaio) não é o produto da escola.

b) Segmentos-alvo: B e C

Critério B (adolescentes) C (adultos lazer)
Receita anual 50 400 € 46 200 €
Permanência 3–5 anos Alta (baixa desistência)
Horário ocupado 17h–20h (hora de ponta) 20h–22h e sábado de manhã (horas mortas)
Custo de aquisição Médio Baixo (boca-a-boca forte)

A decisão-chave não é qual vale mais — é que ocupam horários diferentes. B enche as salas na hora de ponta, onde já há concorrência interna por espaço; C ocupa as horas em que a escola está vazia, gerando receita incremental sem custo de infraestrutura adicional. É por isso que C, apesar de faturar menos em bruto, tem a margem marginal mais alta.

Alvo prioritário: C (adultos lazer), com B mantido como base do negócio.

c) Política de marketing para o segmento C

Variável Decisão Porquê
Produto Turmas "Nunca é tarde": grupos de 4 adultos, repertório escolhido pelos alunos, sem exames nem avaliação formal, audição informal opcional 2×/ano O motivo é lazer, não progressão certificada. A avaliação formal é o principal travão declarado
Preço 55 €/mês; pacote trimestral 150 € (−9%); primeira aula experimental gratuita Aceitam 55 €; o pagamento trimestral reduz a desistência e melhora a tesouraria
Distribuição Aulas às 20h30 e sábado 10h–12h; possibilidade de faltar e repor numa turma equivalente Ocupa as horas mortas; a reposição responde à razão nº 1 de desistência de adultos (imprevistos de trabalho e família)
Comunicação Instagram e Facebook com vídeos curtos de alunos adultos reais a tocar; parceria com o cineteatro para uma audição anual; folheto em farmácias e centro de saúde; testemunhos escritos O travão psicológico é "já não tenho idade". Só se vence vendo pessoas da mesma idade a tocar. O boca-a-boca é o canal mais forte deste segmento

d) Persona — segmento C

Teresa Almeida, 44 anos · Técnica de contabilidade numa empresa do Parque Industrial · Vive no Montijo com o marido e dois filhos de 12 e 15 anos

Dia típico Sai de casa às 8h, chega às 18h30. Jantar às 19h30. A partir das 21h a casa fica calma — os filhos já não precisam dela ao lado
História Teve aulas de piano dos 8 aos 11 anos e parou quando a professora se mudou. Fala nisso há anos: "um dia volto"
Objetivos Ter duas horas por semana que sejam só dela; conseguir tocar duas ou três peças até ao fim do ano; provar a si própria que ainda é capaz
Frustrações Sentir-se ridícula ao lado de adolescentes; ser avaliada; faltar por causa do trabalho e perder a aula paga; horários que só existem à tarde
Comportamento 1×/semana, mensalidade até 55 €, paga por transferência, decide em janeiro ou em setembro (momentos de "recomeço")
Critérios de decisão 1) horário depois das 20h · 2) turma de adultos · 3) poder repor faltas · 4) simpatia do professor · 5) preço
Canais Facebook e Instagram ao final da noite; grupos de WhatsApp de mães da escola; confia sobretudo em quem já anda lá
Base de dados Segmento C · 28% da amostra (n=84) · 5 entrevistas · 2 focus groups

"Não quero fazer exames nem tocar em público. Quero é conseguir tocar aquela música do meu pai antes que ele deixe de a reconhecer." (E12)

Implicação direta de negócio: o preço é o quinto critério. Baixar a mensalidade não capta este segmento — criar uma turma só de adultos às 20h30, com reposição de faltas, capta. O orçamento de marketing deve ir para produzir prova social (vídeos de alunos adultos), não para desconto.

Exercício 6 · Benchmarking e posicionamento

Uma pequena editora de livros infantis, sediada no Montijo, quer definir o seu posicionamento. Recolheu esta grelha:

Critério Nós Editora A (nacional) Editora B (nacional) Editora C (local, Setúbal)
Preço médio do livro 14,90 € 12,90 € 9,90 € 15,90 €
Nº de títulos/ano 4 60 120 6
Ilustração Autoral, artista único Variada, freelance Banco de imagens Autoral
Distribuição 12 livrarias + online Nacional, todas as cadeias Hipermercados 8 livrarias
Temas Histórias da região, natureza local Genéricos, licenças Personagens licenciados Regional (Sado)
Sessões em escolas 30/ano 5/ano 0 12/ano
Instagram 4 200 38 000 91 000 2 100

a) Identifica a concorrência direta, indireta e substituta. b) Identifica as duas vantagens estruturais e as duas fraquezas estruturais. c) Escolhe dois eixos para o mapa percetual e posiciona os quatro concorrentes. d) Escreve a declaração de posicionamento completa. e) Que dado falta para validar este posicionamento?

Resposta:

a) Níveis de concorrência

Nível Quem Nota
Direta Editora C (local, regional, autoral, preço próximo) O concorrente verdadeiro — mesma proposta, público sobreposto
Direta alargada Editora A Compete pelo mesmo espaço em livraria, mas com escala e preço mais baixo
Indireta Editora B (licenciados, hipermercados) Satisfaz a mesma necessidade ("um livro para o meu filho") por outra via e com preço-âncora baixo
Substituta Biblioteca municipal, aplicações de histórias, YouTube infantil, livro em segunda mão, oferta de um brinquedo em vez de um livro É aqui que está a maior parte do "não-consumo" — e o estudo esqueceu-a por completo na grelha
Potencial Autores independentes em autopublicação com impressão a pedido Barreira de entrada muito baixa nesta categoria

A falha mais grave da grelha é não incluir a substituição. Se o pai de uma criança de 5 anos escolhe entre um livro de 14,90 € e a biblioteca (gratuita) ou uma app de subscrição (5 €/mês), a comparação de preço com as outras editoras é secundária.

b) Vantagens e fraquezas estruturais

Vantagens (difíceis de copiar): 1. Presença nas escolas — 30 sessões/ano contra 5 e 0 das nacionais. Cria relação direta com professores e pais, e é um canal de venda que a escala não consegue replicar economicamente. 2. Conteúdo local com ilustração autoral única — impossível de reproduzir por uma editora nacional, que não tem nem o conhecimento do território nem incentivo económico para 4 títulos regionais.

Fraquezas (estruturais, não corrigíveis com esforço): 1. Escala de catálogo — 4 títulos/ano contra 60 e 120. Nunca haverá presença permanente na prateleira nem economia de escala na impressão. 2. Distribuição e notoriedade digital — 12 livrarias e 4 200 seguidores contra distribuição nacional e 91 000. Competir aqui é queimar orçamento contra quem tem mais.

Conclusão estratégica: competir em preço, catálogo ou distribuição é perder. Competir em ligação ao território e experiência direta é jogar onde se é único.

c) Mapa percetual — eixos escolhidos

Os eixos têm de ser dimensões que importem a quem compra. Para pais que compram livros infantis, os dois eixos discriminantes são ligação ao território e preço:

                  Muito ligado ao território
                              ↑
                              │
                              │   ● NÓS (14,90 €)
                              │        ● Editora C (15,90 €)
    Preço baixo ←─────────────┼─────────────→ Preço alto
                              │
       Editora B ●            │
       (9,90 €)               │ ● Editora A (12,90 €)
                              ↓
                  Genérico / sem território

Leitura: partilhamos o quadrante com a Editora C. O posicionamento por território sozinho não diferencia — há já outro ocupante, mais caro e igualmente autoral. A diferenciação tem de vir de um terceiro eixo: a experiência direta com o autor e o ilustrador nas escolas (30 sessões vs 12 da C).

d) Declaração de posicionamento

Para pais, avós e professores da Península de Setúbal que querem que as crianças leiam sobre o sítio onde vivem, a [Editora] é a editora de livros infantis que transforma o território em histórias e leva o autor e o ilustrador à sala de aula, porque publica poucos títulos por ano, todos com ilustração autoral original, e realiza mais de 30 sessões em escolas da região — ao contrário das editoras nacionais, que publicam dezenas de títulos genéricos por ano e nunca põem um autor à frente das crianças.

O eixo de posicionamento principal é o uso/ocasião combinado com origem; a prova (a "razão para acreditar") são os números verificáveis: 4 títulos/ano, ilustrador único, 30 sessões.

e) Dados que faltam para validar

  1. Há procura no espaço que escolhemos? Um posicionamento só vale se existir um segmento que o valorize e pague por ele. É preciso medir: que percentagem dos compradores de livros infantis da região atribui importância à temática local, e quanto está disposta a pagar a mais por isso.
  2. A perceção atual coincide com o desejado? O mapa apresentado é o mapa da grelha de benchmarking — construído com dados objetivos da oferta. O mapa percetual verdadeiro constrói-se com dados de perceção do consumidor (diferencial semântico ou associação de atributos), e pode ser completamente diferente. Talvez os pais nem saibam que a editora é local.
  3. Notoriedade espontânea e assistida da marca junto do público-alvo.
  4. O peso real dos substitutos — quantos pais recorrem à biblioteca ou a conteúdo digital, e com que frequência. Sem este dado, o mercado está sobrestimado.
  5. Valor económico da sessão em escola — quantos livros vende cada sessão, para saber se as 30 sessões são um canal de venda ou um custo de comunicação.

Exercício 7 · Do dado à recomendação

Recebeste estes resultados de um estudo a um centro de explicações:

a) Separa dados, conclusões e recomendações — três de cada. b) Constrói a tabela de recomendações priorizadas (esforço, impacto, responsável, prazo). c) Escreve o sumário executivo (máx. 200 palavras). d) Escreve a secção de limitações.

Resposta:

a) Três níveis

Nível Conteúdo
Dado 1 71% dos pais chegaram por recomendação de outro pai (n=214)
Dado 2 34% desconhecem a oferta de preparação para exames nacionais
Dado 3 O horário incompatível representa 43% dos motivos de desistência declarados
Conclusão 1 O crescimento do centro assenta quase inteiramente no boca-a-boca, sustentado por uma satisfação elevada (4,4/5; NPS +41). É um ativo forte mas frágil: não é controlável e é vulnerável à entrada de um concorrente que capte as mesmas conversas
Conclusão 2 Existe receita não realizada dentro da base atual: um terço dos pais que já são clientes desconhece um serviço que a maioria deles precisará. Não é um problema de captação, é de comunicação interna
Conclusão 3 A perda de clientes é sobretudo operacional, não de preço nem de qualidade. Com 44% a considerar o preço caro ou muito caro e um concorrente 15% mais barato a 300 m, o risco de que a próxima vaga de desistências passe a ser por preço é real — mas hoje a causa é o horário
Recomendação 1 Formalizar o boca-a-boca num programa de recomendação com contrapartida para quem recomenda e para quem chega
Recomendação 2 Campanha de comunicação interna da oferta de preparação para exames, dirigida à base atual
Recomendação 3 Alargar a grelha horária nas faixas identificadas e criar mecanismo de reposição de sessões

b) Tabela de recomendações priorizadas

# Recomendação Esforço Impacto Responsável Prazo
1 Comunicar a preparação para exames à base atual (email, reunião de pais, cartaz na sala de espera, folha na primeira aula) Baixo Alto Coordenação pedagógica 30 dias
2 Programa de recomendação: 1 sessão gratuita para quem recomenda e para quem chega, com registo de origem Baixo Alto Direção 45 dias
3 Alargar horário nas faixas em falta (recolher a faixa exata junto dos 43% que desistiram) e criar reposição de sessões perdidas Médio Alto Coordenação + RH 60 dias
4 Registar sistematicamente a origem de cada novo cliente e o motivo de cada saída Baixo Médio Secretaria 30 dias
5 Estudo de preço (Van Westendorp) e comunicação do valor face ao concorrente — sem baixar preço antes de ter o dado Médio Médio Direção 90 dias
6 Monitorizar mensalmente entradas e saídas nos 6 meses seguintes à abertura do concorrente Baixo Alto Direção Contínuo

Nota de prioridade: a recomendação 1 é a primeira porque tem esforço baixo, impacto alto e atua sobre clientes que já cá estão — é sempre mais barato vender mais a quem já confia do que captar alguém novo.

c) Sumário executivo

Sumário executivo

O estudo inquiriu 214 pais de alunos do centro entre [datas], com uma margem de erro de ±6,7 pontos percentuais para 95% de confiança.

A satisfação é elevada e o boca-a-boca é o motor do negócio. O índice global é de 4,4/5 e o NPS de +41; 71% dos clientes chegaram por recomendação de outro pai. Este é o principal ativo do centro — e a sua principal vulnerabilidade, por não ser controlável nem mensurável no formato atual.

Existe receita não realizada dentro da base atual. 34% dos pais desconhecem a oferta de preparação para exames nacionais. Trata-se de uma falha de comunicação interna com solução de custo praticamente nulo.

As desistências são operacionais, não de preço. O horário incompatível explica 43% das saídas. A perceção de preço é maioritariamente adequada (52%), mas 44% considera-o caro ou muito caro — um risco a vigiar face à abertura de um concorrente 15% mais barato a 300 metros.

Recomendações prioritárias: (1) comunicar a preparação para exames à base atual, em 30 dias; (2) formalizar um programa de recomendação; (3) alargar a grelha horária e permitir reposição de sessões. Recomenda-se não alterar preços antes de um estudo específico de elasticidade.

(≈195 palavras)

d) Limitações

Limitações do estudo

  1. Amostra de clientes atuais. O inquérito foi aplicado a pais de alunos inscritos. Os resultados de satisfação estão, por construção, sujeitos a enviesamento de sobrevivência: quem estava mais insatisfeito já desistiu e não foi inquirido. A satisfação real do universo de quem passou pelo centro é necessariamente inferior a 4,4/5.
  2. Motivos de desistência declarados retrospetivamente. Os 43% de "horário incompatível" resultam de declaração e não de registo no momento da saída. O horário é também um motivo socialmente mais confortável de invocar do que o preço ou a insatisfação com um professor. Este valor deve ser lido como limite superior.
  3. Ausência de dados sobre não-clientes. O estudo não permite estimar a dimensão do mercado potencial, nem a notoriedade do centro junto de quem nunca o contactou, nem a razão pela qual esses pais escolheram outra solução.
  4. Efeito do concorrente ainda não observável. O concorrente abriu há 6 meses; o impacto sobre as inscrições do próximo ano letivo não está refletido nestes dados.
  5. Perceção de preço sem quantificação de elasticidade. Sabe-se que 44% considera o preço elevado, mas não a que preço a procura cairia nem qual a faixa de preço aceitável. Nenhuma decisão de preço deve ser tomada com base neste estudo.
  6. Subgrupos com n reduzido. As análises por ano de escolaridade assentam em subamostras de 30 a 50 respostas, com margens de erro entre ±14 e ±18 pontos, e são apresentadas como indicativas.

Exercício 8 · Detetar as falhas de um relatório

Um colega entregou um relatório com estas passagens. Identifica o que está errado em cada uma e reescreve-a.

a) "A maioria esmagadora dos inquiridos (54,3%) prefere a nova embalagem." (n=35) b) "Como se vê no gráfico, as vendas dispararam após a campanha." (gráfico de barras com eixo Y de 980 a 1 020) c) "Existe uma forte correlação (r=0,68) entre o número de publicações no Instagram e as vendas mensais, o que demonstra que aumentar as publicações aumenta as vendas." d) "Os clientes estão satisfeitos (média 4,1) e recomendamos manter tudo como está." e) "Entrevistámos vários clientes e a opinião geral é positiva." f) "Recomendamos melhorar a comunicação digital."

Resposta:
Erro Versão corrigida
a) Três erros: (i) "maioria esmagadora" para 54,3%; (ii) uma casa decimal sobre n=35 (54,3% são 19 pessoas); (iii) com n=35 a margem de erro é ±16,6 pp — o intervalo [38%; 71%] cruza os 50%, logo não é possível afirmar que há maioria "Numa amostra reduzida (n=35), 19 inquiridos preferiram a nova embalagem e 16 a atual. A margem de erro (±16,6 pp) não permite concluir que exista preferência maioritária; recomenda-se repetir o teste com amostra mínima de 200."
b) Eixo Y truncado (980–1 020): uma variação de 4% parece um salto vertical. É a manipulação gráfica mais comum e é desonesta "As vendas passaram de 1 002 para 1 018 unidades (+1,6%) no mês seguinte à campanha." Gráfico com eixo a começar em zero; se a variação for pequena, usar tabela em vez de gráfico
c) Correlação apresentada como causalidade. Podem ser publicações e vendas a subirem ambas no Natal (terceira variável: sazonalidade), ou publicar-se mais quando as vendas correm bem (causalidade invertida) "Existe uma correlação forte e positiva entre publicações mensais e vendas (r=0,68; n=24 meses). Esta associação não estabelece causalidade — ambas as variáveis apresentam sazonalidade. Para testar o efeito, recomenda-se um período de teste com frequência de publicação aumentada em metade das linhas de produto, mantendo as restantes como controlo."
d) Conclusão sobre a média global, sem desagregação, e recomendação de imobilismo. Uma média de 4,1 pode esconder um segmento em 2,8 "A satisfação global é de 4,1/5, mas apresenta variação relevante por [segmento]: [valores]. Recomenda-se ação dirigida ao grupo com menor satisfação, cuja dimensão representa X% da base e Y% da receita." Se a desagregação não foi feita, é uma limitação a declarar, não uma recomendação a emitir
e) Vago e não verificável: "vários" não é um número, "opinião geral positiva" não é um achado, e não há citações nem indicação de saturação "Foram realizadas 11 entrevistas em profundidade a clientes com mais de 6 meses de antiguidade, entre [datas], até se atingir saturação temática. Emergiram três categorias dominantes: [A] (9/11), [B] (7/11) e [C] (4/11). Ilustrativo de [A]: «[citação literal]» (E04)."
f) Recomendação inacionável: não diz o que fazer, para quem, quem executa, com que esforço, até quando, nem como se mede "Atualizar a ficha Google (horário, fotografias, resposta a avaliações) e publicar 3 conteúdos semanais dirigidos ao segmento [X]. Esforço: baixo · Impacto: médio · Responsável: [nome] · Prazo: 45 dias · Métrica: cliques em 'como chegar' e pedidos de contacto, medidos mensalmente."

Critério transversal: cada afirmação de um relatório tem de conseguir responder a três perguntas — qual é o dado?, qual é o n?, o que é que isto faz alguém decidir?. As passagens acima falham pelo menos uma delas.